sexta-feira, 23 de abril de 2010

O escuro

Hoje a noite estava passando perto do antigo jardim zoológico, já era tarde, estava tudo tão escuro que nem 5m a dentro conseguia-se ver algo. Nunca gostei do escuro. Muita gente que conheço gosta muito, eles sentem como se encontrassem um espaço só deles, longe de todos, onde podem descançar sem as pressões e cobranças da sociedade, onde podem simplesmente serem frágeis e chorar, afinal, na noite, no escuro do seu quarto, sozinho, só há você e você. Para mim o escuro acaba tendo outra conotação... ele me lembra meus medos. Me sinto a mesma menina assustada, envolvida pelo desconhecido, sozinha em um lugar ilimitado pelo breu. Não gosto de estar sozinha e me sentir de tal forma, durante muitos e muitos anos estive assim, meses longos e anos intermináveis onde o escuro era um companheiro indesejável. Me acanho num canto, enrrosco as pernas nos pulsos, junto o joelho no queixo... e tudo parece cada vez mais me engolir dentro de um nada vigoroso e opressor. Muitas vezes o escuro é inevitável, e nem sempreme recollho como a medrosa que sou, tudo o que vivi e aprendi me fizeram ter valorosas armas contra esse indiferente vilão, contudo fortes armaduras e grandiosas espadas pesam, e pesam muito, em certas horas acabamos por abaixar a quarda e deitar o rei. Muitas batalhas são vencidas, outras perdidas. E até hoje esse personagem ambíguo acaba por ser parte da minha vida, e mesmo evitando confrontos ele aparece de repente forte e inflexível diante de mim, me trazendo lembranças tristes, alguma dor e um gosto amargo de solidão.

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