
E fora-se, já, a manhã daquele dia.
Mais uma vez via-se descer a rua tão familiar, o sol a pino, em veloz desajeito, entre carros, pedras e vizinhos distraídos.
Mais uma vez, Thiago sentia as lágrimas precipitarem em seus olhos, na eterna ânsia de redenção.
Porém, novamente e mais uma vez, a engolia em seco, entremeios a soluços e gemidos calados.
Parou em frente a uma casa: não queria entrar.
Baixou a cabeça.
Fechou os olhos.
Respirou: tentava devolver o ar que a corrida cobrara do pequeno corpo.
Pensou esperar um minuto.
Talvez dois.
Até, enfim, tomar fôlego novamente para uma nova corrida mas de uma forma diferente: um jeito em que as pernas não são necessárias, e que não existe um ponto final ou meta.
O chão duro, a parede descascada, a garoa fina não conseguiam o incomodar.
Os pés em calos, as costas em carniça e os hematomas: não sentia.
Sentado, ali, na rua dos Pássaros, no calor do meio dia, acalentado por um vento que refrescava-lhe o suor: tinha um raro momento de paz.
Seu cérebro infantil forçava, urgia, berrava...
Contudo, não conseguia entender certas coisas em sua vida.
Incompreendia o porquê dos garotos da escola o odiarem tanto.
Ou, o motivo para sempre estarem tentando, com poucos fracassos, surrá-lo, na saida das aulas, quase todos os dias.
Não sabia o que fazia de errado para que, dentre todas as crianças do seu pequeno colégio, não tivesse, ao menos, um amigo.
Talvez as roupas velhas que o menino usava, quem sabe, pura e simplesmente, seja o fato de Thiago ser muito tímido, extremamente acanhado...
Ele não saberia dizer...
Contudo, a escola é apenas uma parte da vida de um menino.
Mas as dúvidas do pequeno não terminavam assim.
O garoto também não conseguia entender o que acontecia para seus pais estarem sempre irritados um com o outro.
Não concebia, em seu olhar de infanto, o que levava o patriarca, depois de uma estúpida discussão, inferir, na progenitora, um quente colo de punho nas duras mãças rosadas...
Gritar, e sair, e fugir, porta a fora, cuspindo nomes engraçados e ameaças frias.
E sua mente, em um nó de poesia, deixava confuso os pensamentos pueris, logo que, após a briga, a mãe em pranto maldizia em lágrimas e lamentos, a vida que tinham.
Entretanto, Thiago gostava da vida - de vivê-la - mesmo com tantas questões irracíveis para uma cabeça de menino, e queria mostrar, para sua senhora, que nem tudo era de tão ruim.
Porém, mais uma das milhares, a vida provava-se ilógica, e deixava a criança mais perdida que outrora, pois sempre que ia abraçar, beijar ou meramente beijar a mão da lânguida mãe, a mulher, convertia-se em fera e, cega pela ira, despejava-lhe esmurros, insultos, humilhações: espinhos implícitos e desentranhados.
Thiago segue assim: continua.
Sem entender, compreender ou decifrar.
Sem intuito ou razão alguma...
Ele passa por carro, pedras e vizinhos distraídos.
E mais uma vez thiago desce a rua...